28 de mar de 2010

Falando sobre outras coisas....


Eu tenho falado bastante de mim aqui, mas hoje quero falar um pouco sobre coisas que eu penso, que vejo, que sinto, que vivo neste país que como dizia um antropólogo que conheci é uma sociedade "esquizofrênica".

Sim vivemos uma sociedade completamente esquizofrênica. Onde o ideal é sempre longe, muito, mas muito mesmo, longe de ser o real.

O ideal é que se tenha uma roupa de marca porque isso é o "certo" e o "bom". O ideal é que se tenha uma casa e um carro porque isso é o "certo" e o "bom" e assim por diante.

Eu diria que o "certo" e o "bom" seria eu ter de marcar um exame e não precisar esperar 2 meses para realiza-lo.

Bem, mas hoje eu quero falar da esquizofrenia que vivemos em relação ao ideal de beleza.

Para ser aceito nessa sociedade o ideal é que você seja, de preferência, homem branco de olhos claros e tenha um bom emprego, uma boa escolaridade... Ou então que você seja uma mulher branca; isso tem de ficar bem explicado que não pode ser qualquer cor, a cor ideal para ser aceita e para ser o "certo" e "bom" é a branca; de olhos claros e que seja submissa a um homem. Pode até ter um bom emprego, mas deve ter um bom homem, branco, para poder estar completamente "certa" e "boa". Ah sem esquecer que tem de ser mãe.

Esperei ansiosamente pelo filme da Disney "A princesa e o sapo". A primeira princesa negra da história da Disney, que fará parte do parque da Disney junto com as demais princesas, brancas.

Em pleno século 21 eu acredito que não deveríamos estar mais ansiosamente esperando por fatos como esses, mas sim que esses fatos fossem corriqueiros, normais, naturais.

Cor, religião, sexualidade, faz parte de nossas vidas NATURALMENTE então por que quando olhamos para a sociedade de uma forma geral só vemos uma única forma de se ver, sentir e ser aceita?

Eu brinco com a Amada que ela ta lascada na vida dela, nasceu mulher numa sociedade completamente sexista que valoriza e super valoriza o homem, é negra numa sociedade que é completamente racista e só valoriza o que é branco e pra completar é homossexual (amor não estou falando aqui que você não possa ser bi ta?!) numa sociedade que só aceita a heterossexualidade como o "certo" e "bom".

Essa dai vai mesmo queimar no mármore...rsrsrs.

Mas voltando a falar sobre o filme, eu penso que é importante que nossas crianças tenham hoje a oportunidade de assistir um filme muito bem produzido, digno de Disney mesmo e seguindo todo o roteiro com direito a músicas e mais músicas que fazem parte dos outros contos com princesas que a Disney já produziu, com a maioria dos personagens negros.

A amizade entre a Tiana (a princesa) e a Margo (amiga branca - se não me engano é esse o nome da amiga) não é apelativo, a amiga branca não ta lá no filme para salvar a amiga negra pobre, mas ta lá por que faz parte da humanidade as pessoas fazerem amizade com gente de tudo quanto que é cor oras.
Outra coisa que tem de ser dita é sobre o príncipe também é negro e isso pra mim foi o mais fantástico, já que a negra não precisou ser 'salva' por um príncipe branco.

Adoraria que este filme tivesse sido lançado antes que eu fizesse o meu TCC, pois eu teria mais argumentos pra mostrar como as personagens brancas dos contos de fadas, ainda hoje, prejudicam a identidade da criança negra.

Uma vez saindo com uns amigos da Amada comentaram sobre o tapa que a personagem Helena, da novela Viver a Vida, levou "na cara" da outra personagem branca na novela. Eu não assisti mas pelo que ouvi falarem a Helena estava ajoelhada e a outra lascou-lhe a mão "na cara". E o comentário era que os movimentos negros haviam "repudiado" (palavra minha) a cena que tinha ido ao ar.

E começaram a comentar sobre isso e eu pensando com os meus botões: "isso tem de ser repudiado mesmo, pois como podemos aceitar que ainda hoje se passe a ideia de que se resolvam as coisas na violência, e as vezes um único gesto é capaz de destruir algumas conquistas dos movimentos negros de anos e anos."

Eu já questiono o por que que o bonzão da novela, (eu sou péssima com nome de personagens de novelas que não assisto...rsrsrs), aquele que casou com a Helena não é negro, por que essa família rica não é negra???

E a discussão levaria dias e dias e não conseguiriamos chegar a nenhum resultado. Mas para mim a resposta é que ainda hoje achamos que só os brancos podem se dar bem nesta vida.

E ainda hoje são os brancos que roubam e não vão presos, são os brancos que matam mas de alguma forma isso é justificado, são os brancos que decidem como será o currículo das escolas públicas que tem em sua maioria os negros.

Isso tudo deveríamos discutir mais, deveríamos saber o que REALMENTE esta por traz da indignação, de uma boa percentagem de pessoas, sobre as cotas.

De onde surgiu essa indignação e qual o motivo concreto de se inserir no senso comum essa aversão as cotas.

Questionar não nos tirara nada, só nos acrescentará, então façamos isso.

Questionemos o por que de ainda permitirmos isso. Por que ainda ficamos horas na frente da TV para ficar de olho em um romance entre uma mulher negra e um homem branco (no caso a Thais Araújo e o Thiago Lacerda)?

Por que ainda ouvimos as pessoas falarem que tem de "embranquecer" a família?

Por que ainda fugimos da nossa verdade, da nossa história?

E por fim façamos de tudo para que nossas crianças tenham, desde a sua tenra infância, o direito ao acesso à diversidade.

Vamos exigir que se façam bonecas não só brancas e negras como também indígenas, japonesas, ruivas, chinesas...

Que se façam mais bonecos, pois as crianças tem o direito de conhecer o corpo feminino e o masculino. Os meninos também devem sentir-se parte da brincadeira de bonecas, e talvez, vendo um boneco eles sintam menos aversão, imposta pela sociedade, a essa brincadeira.

Vou fazer de tudo, para que as crianças tenham o direito de no futuro serem elas, seja na escolha de sua religião, seja no aceitar a sua raça ou a sua sexualidade ou em simplesmente não quererem gerar filhos.

Merecemos uma esperança.

Nenhum comentário: